segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Empatia e a Enfermagem

As habilidades sociais são aquelas que permitem relações satisfatórias e efetivas entre as pessoas no cotidiano. Assim, compreendendo que o cuidado de enfermagem configura-se na perspectiva técnico-instrumental (comportamento de cuidado técnico relacionado para o paciente) e na perspectiva afetivo-expressiva (comportamento de cuidado relacionado à comunicação que expressa emoções e sentimentos orientados para o estar com o outro e fazê-lo sentir-se bem), o desvelar de suas interfaces nos diferentes cenários com as habilidades sociais mostra-se importante para a compreensão, principalmente, em sua perspectiva afetivo-expressiva. Isto por as representações construídas pelos diversos atores sociais influenciarem no cuidado de enfermagem, podendo expressar-se nas habilidades sociais dispensadas nas relações interpessoais estabelecidas entre profissionais de enfermagem e clientela.

Dentre as habilidades sociais implicadas no cuidado de enfermagem, pode ser destacada a empatia, a qual tem por dimensões: a cognição, que seria a capacidade de interpretar os sentimentos e pensamentos do outro; a afetividade, definindo a capacidade para experimentar compaixão e simpatia pelo outro; e a comportamental, ou seja, a transmissão do reconhecimento explícito dos sentimentos e das perspectivas do outro. Assim, pode-se perceber como pontos de balizamento a participação de processos cognitivos e comportamentais/atitudinais para a efetivação dos processos de interação empática no cuidado de enfermagem. Além dos aspectos enunciados, vislumbra-se, outrossim, o papel desempenhado pela noção de empatia automática (aquela que se dá de modo mais imediato, pela influência de elementos facilitadores do compartilhamento afetivo entre o eu e o outro, não obstante a auto-consciência, a flexibilidade mental e, portanto, a dimensão comportamental de demonstração de compreensão do outro em seus termos) e a controlada (quando atuam fatores que tendem a dificultar a assunção da perspectiva do outro e, por conseqüência, do desenvolvimento dos demais componentes da empatia), bem como da familiaridade e não-familiaridade. A empatia controlada poderia ocorrer, por exemplo, no caso das relações interpessoais entre profissionais de enfermagem e clientes portadores de agravos relacionados, historicamente, com processos de estigmatização e discriminação, devido a sua construção social como desvios morais e culpabilização do sujeito por sua doença ou comportamento (como HIV/AIDS, tuberculose, sífilis, câncer ou usuários de drogas). Deste modo, pensas-e que as representações sociais, como saber ingênuo ou teoria do senso comum, partilhada por determinado grupo acerca de determinado objeto, que pode ser, inclusive, um grupo de pessoas ou fenômeno/atributo associado a estas, pode consistir em um aspecto facilitador ou promotor da empatia nas relações cotidianas (como o cuidado de enfermagem, por exemplo). Neste sentido, pode-se afirmar que entre os efeitos mais robustos nos experimentos sobre a empatia, amplamente, encontra-se a familiaridade4, a qual, juntamente com a similaridade, facilitam o processo de empatia e a tomada da perspectiva do outro. Desta maneira, por hipótese, quanto maior a familiaridade, mais ricas são as representações dos sujeitos acerca do objeto, que, neste caso, consistem nos sujeitos do cuidado de enfermagem. Uma representação mais complexa, por sua vez, envolve mais associações e, então, cria um modo mais ampliado e acurado de padrão de atividade no sujeito. Este padrão é codificado em referência à experiência pessoal e com o objeto de interesse dos sujeitos. Trazendo estas discussões para o campo da enfermagem, pode-se afirmar que o desenvolvimento das habilidades sociais ocupa um espaço definidor do cuidado de enfermagem e da sua qualidade, uma vez que este implica no estabelecimento de relações empáticas entre os sujeitos envolvidos no processo nos mais diversos cenários de atenção à saúde. E, conforme pontuado anteriormente, as representações dos sujeitos sobre o cuidado e os atores envolvidos expressam-se nas habilidades sociais utilizadas nas relações interpessoais estabelecidas entre profissionais de enfermagem e clientela. O cuidado em saúde, portanto, não pode prescindir de habilidades sociais, sem as quais se torna um processo de execução de ações técnicas não relacionais voltadas ao corpo, de efetividade duvidosa sobre o estado de saúde do cliente.

A enfermagem é conceituada como a arte de cuidar. Neste sentido, a empatia, habilidade essencial do cuidar, constitui-se um componente fundamental do tratamento dispensado ao cliente. O conhecimento científico e a habilidade técnica do profissional enfermeiro são importantes, mas de pouco adiantará se este mesmo profissional não apresentar um bom relacionamento interpessoal, ser empático e assertivo. É necessário que a enfermagem encontre equilíbrio entre o conhecimento científico e a prática de comportamento humanístico.

A empatia é tida como condição essencial para o desenvolvimento, crescimento, melhor funcionamento e maior capacidade de enfrentar os problemas do cotidiano, tornando o cliente cada vez mais independente para o autocuidado.

O desenvolvimento do sentimento de empatia pela equipe de enfermagem no atendimento à pessoa que está sendo assistida é de grande importância. Também da empatia depende o sucesso do tratamento da pessoa, pois a mesma tem efeito terapêutico.

Segundo Goleman (1995), a palavra empatia tem a sua origem na linguagem grega – empatheia, que significa tendência para sentir o que se sentiria caso se estivesse na situação e circunstâncias experimentadas, vivenciadas por outra pessoa.

A empatia é uma habilidade que pode ser realizada junto ao cliente de forma verbal e não verbal. O seu desenvolvimento é de extrema importância quando nos propomos a ajudar alguém. O enfermeiro deve possuir um bom nível de maturidade, estabilidade emocional e autoconhecimento. Para que ocorra a empatia como processo terapêutico, é fundamental que se desenvolva um relacionamento de respeito mútuo e que o enfermeiro preste cuidado individualizado, respeitando a cultura, crenças e valores da pessoa.

A habilidade de gerar empatia nos relacionamentos com as pessoas com a qual convivemos, em casa ou no trabalho, é uma das essências da inteligência interpessoal e fundamental para quem quer se tornar emocionalmente eficaz.

Ao discutir a respeito de empatia, faz-se necessário conceituarmos o processo de comunicação. Segundo Stefanelli (1993), comunicação é entendida como um processo de compreender, compartilhar mensagens enviadas e recebidas, sendo que as próprias mensagens e o modo como se dá essa comunicação, exercem influência no comportamento das pessoas nele envolvidas, a curto, médio e longo prazo. É, portanto, por meio da comunicação vivenciada entre enfermeiro e cliente, que este profissional pode definir metas e objetivos a serem atingidos pelo cliente, por ele próprio ou em conjunto, de modo a levar o paciente a sentir-se como ser humano digno, capaz de encontrar soluções para seus problemas, de ser útil a seus semelhantes e de contribuir para a sociedade em que vive e, também, de aceitar desses profissionais o que é necessário para a promoção, manutenção e

recuperação de sua saúde física e mental. Esta interação enfermeiro/cliente pode se dar de forma positiva, desenvolvendo a habilidade da empatia.

O conhecimento científico e a habilidade técnica do profissional enfermeiro são importantes, mas de pouco adiantarão se este mesmo profissional não apresentar um bom relacionamento interpessoal, ser empático, assertivo. É imperativo que os profissionais de enfermagem encontrem o equilíbrio entre o conhecimento científico e a prática de comportamento humanístico (BOEMER, 1984).

Através da empatia o enfermeiro encontra o cliente numa relação “eu-tu”, envolvendo a natureza intelectual e emocional do homem, sendo imprescindível, portanto, que nos coloquemos no lugar do outro (STEFANELLI, 1982). Esta autora alerta, ainda, para o fato de que os enfermeiros estão muito empenhados no profissionalismo e, portanto, focalizam mais a ciência que a arte de enfermagem, o que tem acarretado negligência no aspecto humano da profissão.

Uma relação empática de forma alguma se caracteriza por não ter reações perante o outro, mas sim saber que essas reações são possíveis sim, e que de fato acontecerão. Entretanto o que ganha destaque não é o movimento de ação e reação, mas sim o de estar junto e possibilitar que através desta parceria, a pessoa que procura auxílio psicológico se sinta segura para explorar a si mesma.

Em uma época em que o individualismo é o que rege as regras sociais, gerando assim solidão e isolamento, o ato de cuidar deveria envolver justamente a preciosa oportunidade de estar acompanhado de alguém, que a todo momento estende a mão não como forma de punição, mas como um convite de que é possível estar ao lado de alguém importante que respeitará suas dificuldades, reconhecerá suas potencialidades e que aceitará que o cliente seja ele mesmo.

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